Gratidão · Um Ponto de Convergência

“Estou feliz que vá passear um pouco…”

Hoje Dona Selma vai passear.
A cuidadora Fernanda vai levá-la no centro de Osasco, para comprar coisas para fazer a decoração do aniversário dos filhos.
Ela ficou super contente no dia anterior, mas hoje DEU UM TRABALHO PRA LEVANTAR…
Sua alimentação seria pão e leite ao meio dia, antes de sair pra caminhar no Sol quente se não fosse a minha insistência e chantagem: “SE NÃO COMER ARROZ E FEIJÃO NÃO VAI SAIR”.
Tem sido assim nos últimos dias, os amigos mais próximos bem sabem, se não for assim, ela passa o dia todo sem comer NADA.
Sua filha, Juliana (minha amada), teve a ideia de mandar um e-mail – em letras gigantes – para a mãe ler antes de sair:
“OI MÃE!
ESTOU FELIZ QUE VÁ PASSEAR UM POUCO, AJUDE A FERNANDA A FAZER O ARTESANATO, APROVEITA TA BOM?
…E FICA BONITA TA BOM? CUIDA DE SI, DA SUA AUTO ESTIMA, APROVEITA.
(…)
EU E A FLAVIA TE AMAMOS E QUEREMOS CUIDAR DA SENHORA.
APROVEITA SUA TARDE! 
BEIJÃO”
Depois disso, Dona Selma olhou pra mim e disse: “Vamos descer pra esperar a Fernanda lá embaixo?”
“A Fernanda mandou mensagem, ela vai demorar, ainda nem saiu de casa.”
“Vamos descer mesmo assim, eu quero ver gente, quero ver a  rua, vamos?”
A mensagem da filha foi esquecida, quase num passe de mágica.
A minha necessidade de trabalhar nos meus planejamentos e preparações de capacitação foi praticamente ignorada – ela nunca leva em consideração que tenho que trabalhar.

Ontem tentei levá-las (Selma e Fernanda) na casa da Márcia – irmã da Selma.
Ela não estava, eu liguei em seu celular e ela me avisou rapidamente que estava em um curso e enquanto eu perguntava se poderia voltar outro dia, ela simplesmente desligou sem dar tchau.
Perda de tempo, pensei.
Em seguida ela quis ir na casa de uma amiga, a Dilza, que não a vê desde que ela foi internada com Meningite Bacteriana em dezembro de 2013. Chamou, mas a moça não estava em casa.
“Vamos na casa de outra colega? Por favor Flávia!!”
Para ela, todos devem estar disponíveis e com tempo para ficar com ela, para conversar com ela, até mesmo as pessoas que não a veem há tanto tempo.
Não permiti. Por mais que eu saiba que estar com as pessoas faz bem a ela, não posso simplesmente invadir a privacidade das pessoas batendo em suas portas e entregando a Dona Selma para elas, afinal de contas eu não poderia ficar, eu trabalho – em casa – mas trabalho e é difícil fazer as pessoas no geral entenderem isso, imagina fazer a Dona Selma entender?
Fomos pra minha mãe, de lá, ela pediu pra cuidadora pra voltar andando pra casa da irmã (vazia) escondido de mim, sem me contar. Fernanda me contou e fui de carro levá-las de volta. Não era longe, mas andando, no Sol quente, é muito ruim, o caminho “se torna maior”.

Ela se preocupa com o que quer, não olha ao redor, apenas segue em frente com suas convicções e necessidades urgentes e repentinas, como encostar a mão num portão, mesmo que tenha cachorro feroz; sentar e levantar inúmeras vezes da cadeira, da cama, da privada; bater os ombros em todos os batentes das portas e nas quinas das paredes; bater a perna na pia, na geladeira, no fogão, na mesa, no sofá; ou bater a cabeça na janela, no puxador do guarda roupa ou no espelho…

Eu comecei escrevendo o quanto a filha Juliana está feliz, pois a mãe Selma está indo passear. Ao mesmo tempo eu fico apreensiva com o celular esperando ele tocar para ir socorrer de alguma emergência.
Nossos dias têm sido assim… e não importa o quanto ficamos felizes com cada bom momento ou bom dia, ela sempre vai chorar e dizer que não é feliz aqui, ou simplesmente nos ignorar.
Se alguém já achou a fórmula para não se frustrar diante de situações como esta, por favor, eu preciso da receita…
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